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O cinema como prática social, cultural e afetiva

O artigo “O Cinema como prática social, cultural e afetiva” foi escrito pela profa. dra. JOSIMEY COSTA DA SILVA,  Superintendente de Comunicação da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte (*). Para ler este e outros artigos, poesias e escritos clique aqui para visitar o site da autora.

Para a sociedade contemporânea, o cinema aparece como o triunfo da arte mecânica, objetiva, emblema da indústria da diversão, corolário ideológico do capitalismo, mas esse meio de comunicação não é só isso. Edgar Morin, em seu livro “O cinema ou o homem imaginário”, afirma que o cinema é arte e indústria ao mesmo tempo, se constituindo num fenômeno de cunho social e também estético. Sendo a síntese da objetividade numa produção cultural, fabrica sonhos e atua como uma máquina de sentir auxiliar.

Um filme pode ser assistido por um espectador solitário, no interior da sua casa. Se assim é, que tipo de associação leva as pessoas a deixarem a televisão, com sua domesticidade confortável, e ir ao cinema? A experiência do cinema, ao contrário da mera recepção fílmica, é coletiva, exige os cidadãos juntos. Assistir a um filme junto com outras pessoas permite o contágio do riso, do susto, do choro. Pelo compartilhamento da emoção, o cinema possibilita o encontro, ainda que efêmero, onde o outro necessita ser significante, trazer em seu corpo indícios e sinais que funcionem como signo.

Percebida toda essa complexidade, fica claro que o cinema é o filme e, também, o lugar. Há práticas que se vinculam a esse espaço. Há maneiras de freqüentá-lo. Um cinema de bairro, por exemplo, tem um significado diferente para os seus freqüentadores quando confrontado com o cinema de um shopping center ou com um cineclube. O bairro surge como intersecção entre o universo privado da casa e o mundo público da cidade, um espaço de sociabilidades específicas, de comunicação entre vizinhos e parentes; o cineclube reúne pessoas que vêem mais do que diversão no ato de assistir a um filme, que aprofundam os laços do encontro ao compartilharem de um projeto de intervenção cultural.

O processo de comunicação que o cinema possibilita envolve uma alteração perceptiva que permite um estado de semi-hipnose ou semi-onirismo. O espectador está acordado, mas experimenta uma vivência mental própria do sonho, capaz de suscitar emoções que afloram com base em artifícios narrativos, lingüísticos, próprios do texto fílmico. Isso torna possível ver o que é novo e redescobrir o que é cotidiano e, portanto, imperceptível.

Por seu modo de fruição, predominantemente estético, afetivo, o cinema remete a práticas ancestrais ligadas à magia e aos rituais. Se entendermos o ritual como umacontecimento capaz de conferir ritmos sincronizadores às práticas sociais, instaurados por meio da repetição e do alcance coletivo, o cineminha semanal poderia se enquadrar nessa função sincronizadora? Haveria ritual no encontro marcado entre amigos ou namorados na entrada do cinema, com um bate-papo depois? O que de extraordinário existiria em uma sessão pública especial de cinema na periferia de uma cidade ou na praça pública interiorana para uma população que não tem acesso a salas de bairro ou de shopping centers?

Walter Benjamim, no seu “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica”, informa que as mais antigas obras de arte nasceram com funções ritualísticas, inicialmente mágicas, depois religiosas. Estas funções encontram-se diluídas quando se trata de qualquer obra reprodutível na atual sociedade, ainda mais para o cinema, em que a reprodução é prerrogativa técnica. Porém, o ritual também pode ser visto como o processo de pôr em relação, dando sentido aos fatos da vida social, um processo produtor de qualidade em que o ordinário se transforma em extraordinário. Se o cinema introduz o sonho no cotidiano, se responde a questões que a vida nos coloca, se nos faz transcender nossa realidade pessoal e nos coloca em outras dimensões simbólicas, a sessão de cinema regular pode ser definida como uma espécie de ritual em que a função sagrada está deslocada ou diluída. Lançada luz sobre os rostos semi-hipnotizados pelo espetáculo da imagem em movimento, descobre-se que a sala escura abriga muito mais que a mera diversão.

(*) A escritora, professora, pesquisadora e videomaker JOSIMEY COSTA DA SILVA é graduada em Comunicação Social – Jornalismo  e doutora em Ciências Sociais/Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2004). Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, atua na Pós-Graduação em Ciências Sociais e na Pós-Graduação em Estudos da Mídia. Tem experiência profissional em jornalismo com ênfase em Videodifusão. Áreas de interesse para pesquisa: comunicação social, complexidade, cultura, cinema, corpo e cultura digital. Dirigiu o vídeo documentário “Imagem sobre Imagem: a Segunda Guerra em Natal” e tem livros de ensaios, contos e poemas publicados. Para ver o CV Lattes clique aqui.

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Sobre SRSC

Journalist. Filmmaker. Audiovisual Researcher. MediaDesigner. English Teacher.

2 comentários em “O cinema como prática social, cultural e afetiva

  1. Fernando Index
    20/05/2014

    gostei da abordagem, nunca pensei em comparar um filme com um sonho, já que ambos são fragmentados e nos trazem emoções!

  2. Pingback: Os números de 2010 « ABD Potiguar 10 anos de sucesso: sol, cine e ação!

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Informação

Publicado em 01/08/2010 por em Cinema, Josimey Costa (UFRN).
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