Blog da ABDeC / RN

O Brasil ficou Tiririca

Fonte: CT

Por Lúcia Rocha (Twitter, Blog)
Jornalista e cientista social
Em toda eleição aparece uma novidade. Alguém que, aos olhos da elite política ou social, não deveria, mas foi eleito. O país que já teve voto de protesto num macaco, agora se vê na iminência de ter no Congresso Nacional, um palhaço profissional.
O Rio Grande do Norte, elegeu também deputado federal, um apresentador de televisão, que aos olhos da elite potiguar, não fica atrás de Tiririca, ou seja, mais um palhaço em Brasília. Seriam dois, então?
Conheço ambos e posso garantir que sofreram preconceito tolo por parte de quem se acha no direito de julgá-los.
Paulo e Tiririca atingiram o apogeu da carreira profissional à custa de seus próprios esforços. Romperam paradigmas e ousaram, não têm vergonha do que fazem. Representam seus próprios papéis, levando alegria e descontração através de sua arte.
Quis o destino que tanto Tiririca como Paulo passassem por minhas mãos, antes de estrearem na televisão. Explico. Em 1993, já morava em São Paulo e fiquei em Mossoró durante oito meses, acompanhando tratamento médico de mamãe. Carlos Alberto abriu sucursal da TV Ponta Negra e coube a mim, implantar, dirigi-la e capacitar seus profissionais naquele período.
Para escolher seu quadro de profissionais, fui às rádios convocar candidatos para testes, onde ninguém teria privilégios, nem seria apadrinhado. Dos aprovados, sem sombra de dúvidas, o melhor repórter policial era Paulo Wagner que, do rádio, migrou para a televisão e se adaptou logo.
Trata-se de alguém que já nasceu com um dom. E carisma e dom, ninguém discute. Vem do berço. Ou do ventre.
Anos depois, fechada a sucursal de Mossoró, a então diretora de jornalismo, Micarla de Sousa, hoje prefeita de Natal, levou Paulo Wagner para apresentador da emissora em Natal. Valeu o investimento. O rapaz é dono do horário de maior audiência da televisão potiguar. Foi eleito há dois anos com a maior votação da história para a Câmara de Vereadores de Natal.
Quanto a Tiririca, bem. Em meados da década de noventa, eu assessorava a banda Raça Negra, à época o maior vendedor de discos do país e sempre que cumpríamos agenda de shows em Fortaleza, aparecia Tiririca, pedindo a nossa equipe, para entregarmos seu CD para o Gugu. Ele fazia sucesso nas barracas de praia do litoral cearense, com a faixa Florentina.
Passei a falar de Tiririca para o produtor musical e amigo, Arnaldo Saccomani, que acabara de lançar Mamonas Assassinas e estava ocupado com o sucesso dos meninos. Em 1996, com o desastre aéreo do grupo, Arnaldo caiu em depressão e, num determinado momento, lembrou de um palhaço que eu havia falado, pois tinha a ver com a linha musical dos Mamonas.
Eis que Saccomani me liga no escritório do Raça Negra, pedindo o telefone do tal palhaço. Para alegria geral, Tiririca chega à São Paulo pelas mãos de Saccomani. Uma longa história porque Tiririca não sabia ler e não entendia nada sobre contratos.
Nem para assinar o PTA no aeroporto de Fortaleza e pegar o vôo. Paulinho, funcionário de Saccomani, passou uma semana tentando convencê-lo que era um bom negócio ir para a Sony Music. Um cheque de R$ 60 mil reais o aguardava. Isso em 1996. Portanto, há 14 anos.
Já instalado em São Paulo, numa mansão no mesmo condomínio de Saccomani, fui apresentada ao novo migrante, que fez questão de me conhecer. Casa cheia, Tiririca levou na bagagem, dezenove pessoas da família da primeira esposa, Rogéria. Por sinal, ciumenta, preferia-o analfabeto, para não ler bilhetes de fãs. Disso sou testemunha.
Após a separação e com nova esposa, Tiririca aprendeu a ler. Tem dificuldade em escrever, lógico. Afinal de contas, já era um homem quando aprendeu a ler. Tirou carteira de motorista, inclusive.
Em junho de 1997, Tiririca sofreu processo por racismo na Justiça do Rio de Janeiro, depois que uma de suas músicas, Veja os Cabelos Dela, foi considerada preconceituosa por entidades ligadas aos negros.
Agora, sob a alegação de que não sabe ler, querem tomar o mandato de Tiririca, depois de uma vitória de mais de um milhão de votos. De eleitores nordestinos que enxergam no Tiririca o nordestino que deu certo em São Paulo. Torço para que ele assuma o cargo.
Continua uma pessoa simples. Antes da eleição, disse-me via Twitter, que seu pai, um assuense, continua morando em Assu. E relembrou a amizade com Fuxiquinho, o palhaço de Mossoró.
Mas todo esse preconceito em cima de Paulo Wagner e Tiririca tem um alvo: seus líderes.
De antemão, posso dizer que Tiririca é o retrato do Brasil: desdentado e semi-analfabeto.

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Sobre SRSC

Journalist. Filmmaker. Audiovisual Researcher. MediaDesigner. English Teacher.

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Informação

Publicado em 14/11/2010 por em Cultura, Eleições 2010, Natal-RN.
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