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Gazeta do Oeste: relíquias do cinema potiguar

Colecionador fala sobre relíquias do cinema

Geraldo Pires adquiriu parte do acervo do Cine Pax; entre as raridades, um projetor a carvão, além de cartazes e filmes
Postado em 18/07/2011 às 10:37 horas por Mário Gerson na sessão Cultura do Jornal Gazeta do Oeste

Mário Gerson

Da Redação

Atendendo por trás de um balcão a fregueses diversos, o homem de óculos e olhar sereno não tem o mesmo ar quando entra no pequeno compartimento de uma casa, localizada ao lado do comércio da família. Lá, Geraldo Pires se transforma. É outra pessoa quando começa a falar sobre os projetores raros que coleciona, os rolos de 16 e 35 milímetros, filmes que não estão mais disponíveis no mercado, além de uma grande coleção de cartazes de cinema – são quase 300 – todos eles pertenciam ao antigo Cine Pax, fechado há alguns anos na cidade. “Tenho o cartaz do primeiro filme exibido no Pax, em 1943: Formosa Bandida! Luiz Pinto doou para minha coleção”, salienta, enquanto pega um rolo de filme, dos quase 100 rolos antigos de sua coleção. “Todo mês tenho que limpá-los. Uma vez perdi muitos deles. Para mantê-los perfeitos, exige-se atenção. Senão, o clima, o tempo, tudo pode danificá-los”, explica. “Além deles, tenho 4.186 filmes em VHS”, diz, sorrindo.

O andar lento, a forma como fala da coleção, tudo isso desperta atenção quando o visitante entra na sala reservada para o acervo. Uma de suas peças mais raras é o projetor a carvão, que pertenceu ao Cine Imperial – e logo depois ao Pax – adquirido pelo valor de R$ 4.600,00. “30% do que ganho, no comércio da família, é destinado para o meu hobby, filmes, películas antigas, filmadoras raras e projetores”, diz, ao mostrar a coleção nas estantes de aço.

Na entrada da casa, a primeira peça é o projetor do Cine Imperial. “São dois homens ou mais para transportá-lo e naqueles carrinhos! Ele pesa muito”, destaca. Em aço fundido, a peça é uma raridade que ele está “ajeitando aos poucos”, para depois ser utilizada num projeto ousado do comerciante.

Há outros projetores raros. Um deles é o de 16 milímetros, de fabricação australiana. “Este é uma joia rara. É um projetor mudo”, fala, com alegria. “Tenho amigos que também gostam de cinema, assim como eu, e colecionam. Posso citar um grande conhecedor do assunto e que tem um importante acervo, nesse sentido: Carlos Frederico. Mora em Natal e conhece bem a área”, destaca.

Entre outras peças do acervo, as que merecem também destaque são os rolos com filmes em 35 e 16 milímetros, além das filmadoras. “Tenho uma filmadora – infelizmente está em Fortaleza – que funciona à corda. Dávamos corda e depois filmávamos. Esta outra, manual, que utilizei também até a década de 70, só filma três minutos. Fiz alguns documentários com ela. É a Rollei, Super 8, à pilha”, diz.

No entanto, é do projetor Natco – 1945 – americano – pós-Segunda Guerra Mundial, de quem fala com certo orgulho. “Ganhei de um amigo, sob a condição de nunca me desfazer dele. Muitas pessoas já ‘colocaram dinheiro’ no Natco, que veio para o Brasil trazido por um libanês. Ele fugia da Segunda Guerra. Foi para os Estados Unidos, mas descobriu que o Brasil lhe dava mais condições de melhor moradia e calma. Hoje, ele está comigo e já neguei muitas ofertas. É uma peça linda, em todos os aspectos. Para um colecionador, uma raridade”, frisa, mostrando, também, entre os rolos antigos, o cartaz do primeiro filme de Vera Fischer, Anjo Loiro. “A ditadura militar proibia mostrar os seios. Por isso, estão cobertos”, comenta, sorrindo.

Aos 54 anos, Geraldo Pires diz que continuará apaixonado pelo cinema e que, antes da inauguração do shopping local, ainda chegou a conversar com a direção, acerca de uma sala para exibição de filmes. “À época, eles procuraram Luiz Pinto, com a proposta de uma sala ao preço de um milhão de reais. Conversei com eles também, mas não tive retorno. Logo depois, veio o cinema. As pessoas diziam que ele duraria pouco, mas não foi o que aconteceu. Hoje, temos um cinema e um bom mercado de filmes. Mossoró comporta, sim, investimentos dessa natureza. Até mais”, explica, frisando que continua com o sonho de abrir uma sala de cinema e expor o material da coleção.

Geraldo não é apenas fascinado pelo cinema. Máquinas fotográficas e discos também fazem parte do acervo. Um deles, o mais raro, é o Abbey Road, lançado em 26 de setembro de 1969, pela banda britânica Os Beatles. “Já colocaram R$ 500,00 neste disco. Não vendo. Tudo que está aqui é da coleção”, comenta, mostrando a raridade, presente de um amigo.

‘Quero levá-lo para uma cidade do interior e fundar um cinema’

Um dos sonhos do colecionador e amante da sétima arte não poderia ser outro: “Colocar para funcionar este projetor a carvão o mais rápido possível e montar um cinema”, fala, entre um sorriso e outro. “Aos poucos, o Luís, que projetava os filmes do Pax, está fazendo a lubrificação. Estou avaliando uma cidade do interior do Estado, para levar este meu projeto. Uma delas é a cidade serrana de Martins. Acho que lá seria um lugar ideal para se montar uma sala de cinema”, explica.

Comportando lâmpadas de 1.000 watts – que variam entre R$ 300,00 e R$ 600,00 – colocar o antigo projetor para funcionar é um dos objetivos do colecionador. Um detalhe é que as lâmpadas são sensíveis. “Tenho que guardá-las com cuidado, pois não se pode tocar diretamente no vidro”, explica, mostrando uma delas. “Um dos meus sonhos é adquirir um projetor moderno, de rolo deitado, 35 milímetros, bifásico, com lâmpadas de 700 watts e claridade de 2.000”, comenta.

Atualmente, quatro projetores de 16 milímetros estão em perfeito estado de funcionamento e outros ainda serão montados. “Vou continuar colecionando, passando adiante minha paixão pelo cinema, pela boa sétima arte. Meu filho também gosta e tudo que sei passo para ele. Acho que a história do cinema na cidade não pode morrer. Não vai morrer”, diz.

Para a irmã, Gladys Pires, Geraldo sempre foi um apaixonado pelo cinema. “Ele foi um dos que mais frequentaram o antigo Cine Pax. É um apaixonado pela área”, fala, enquanto o irmão, ao lado, abre a parte inferior do projetor a carvão: “Faltam apenas alguns ajustes”, finaliza.

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Sobre SRSC

Journalist. Filmmaker. Audiovisual Researcher. MediaDesigner. English Teacher.

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Publicado em 23/02/2012 por em Audiovisual, Cinema.
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