Blog da ABDeC / RN

Nossas Américas, Nossos Cinemas

Fonte: Revista de Cinema
BÁRBARA CARIRY COORDENA EVENTO QUE REÚNE JOVENS CINEASTAS EM SOBRAL, CE
I Nossas Américas, Nossos Cinemas
Jovens realizadores se despedem do I Nossas Américas – Nossos Cinemas, em Sobral

Bárbara Cariry e Helena Ignez

Durante quatro dias, realizadores latino-americanos e caribenhos de audiovisual se encontraram em Sobral, região norte do Ceará, para o I Nossas Américas – Nossos Cinemas: I Encontro de Jovens Realizadores da América Latina e do Caribe. A cerimônia de encerramento, que aconteceu no último sábado (26), no Teatro São João, homenageou o cineasta Humberto Rios e o prefeito do município, Clodoveu Arruda. A noite também contou com a exibição do documentário “Testigos de un Etnocidio: Memorias de Resistencia”, realizado por outra homenageada da noite, a colombiana Marta Rodríguez.

Outro momento importante do encerramento foi a leitura da Carta de Sobral nos idiomas português, espanhol e guarani, representando todos os povos presentes no encontro. A Carta reuniu princípios e proposições de ações visando ao intercâmbio e à colaboração solidária entre os jovens realizadores de cinema e audiovisual da América Latina e do Caribe. A noite foi encerrada por show comandado pela cantora Myrlla Muniz.

A programação do I Nossas Américas – Nossos Cinemas trouxe mesas temáticas, oficinas, palestras e mostras de filmes, que buscaram novas formas de organização, de trocas e vivências entre os convidados. Cerca de 220 realizadores se encontraram com o objetivo de conversar sobre o que mais amam, o cinema, e realizar intercâmbios culturais.

Mesa de debate do evento

Para Bárbara Cariry, diretora geral do I Nossas Américas – Nossos Cinemas, as atividades realizadas no encontro integraram com sucesso os jovens realizadores, que ainda trocaram experiências com cineastas como Michel Régnier, Geraldo Sarno, Eryk Rocha, Lázara Herrera, entre outros. “Nosso objetivo, que sempre foi de movimentar a produção cinematográfica nos países da América Latina e do Caribe, foi alcançado com sucesso, contando com grande receptividade de Sobral e nos deixando ansiosos pelo próximo encontro”, disse.

 

A cineasta homenageada Lazara Herrera

O I Nossas Américas – Nossos Cinemas: I Encontro de Jovens Realizadores da América Latina e Caribe tem patrocínio do Ministério da Cultura / Secretaria do Audiovisual, da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará e da Prefeitura Municipal de Sobral. A realização é da Secretaria de Cultura e Turismo de Sobral e Sereia Filmes. Os apoiadores são o Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), o Conselho Nacional de Cineclubes – CNC, o Encontro de Documentaristas do Século XXI (DOCLAT SEC XXI) e outras instituições internacionais ligadas ao audiovisual.

A Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) / Associação Brasileira
de Documentaristas – secção Bahia (ABD-BA) esteve presente na  1ª
Mostra “Nossas Histórias, Nossos Cinemas” e no 1º Encuentro de Jóvenes
Realizadores de América Latina y Caribe, realizados em Sobral, Ceará,
nos dias 23 a 26 de maio, através de sua diretoria institucional.

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A ABD-RN participou do evento com a jovem integrante da nossa associação de cineastas potiguares, Andressa Vieira. Infelizmente, em virtude de alguns problemas  Andressa não pode compartilhar conosco as informações e fotografias sobre o evento. Portanto, para que os associados da ABD-RN e os seguidores deste blog possam ter conhecimento do que foi tratado durante esse importante encontro transcrevemos a seguir alguns trechos de um emocionado depoimento da jovem integrante da Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) / Associação Brasileira de Documentaristas – secção Bahia (ABD-BA)  CAROLLINI ASSIS  :

“O que tenho a relatar sobre o evento segue nas poucas linhas abaixo,  imbuída ainda que estou do  sumo vivificador que a ousadia, a coragem, intrepidez, a expressividade e a gentileza da juventude (que não é questão de idade, é questão de espírito) de tantos povos  foi capaz de reavivar em mim.

16 nações da América Latina e Caribe estavam representadas (ainda faltaram muitas) e todas as regiões brasileiras tiveram representantes, embora nem todos os Estados. Vale ressaltar a presença de vários representantes de povos originários, nomenclatura que substitui a dos “índios”, no evento. Esse foi o primeiro encontro, a ideia é que os jovens lá presentes se tornem multiplicadores para que haja uma rotatividade na presença de realizadores não só no “Nossas Américas, Nossos Cinemas” mas também no Encuentro de Jóvenes Realizadores de América latina y Caribe, que este ano aconteceram concomitantemente, mas a previsão é que o encontro seja realizado na Argentina, ano que vem. Tivemos uma programação bastante fechada e engessada, foram dias de muito trabalho, muita discussão, e embora saibamos de nossas inúmeras semelhanças e diferenças, foram elas – as diferenças – que nos empurraram adiante para o debate por vezes caloroso, por vezes apenas esclarecedor. Digo isso porque pela amanhã acompanhávamos as Mesas-Redondas (3 numa manhã, com convidados de peso)  e às tardes (intervalo de apenas 40 minutos par almoço) trabalhávamos em mesas de trabalho que abarcavam Difusão, Cursos e Escolas, Intercâmbio, Novas Tecnologias e Associações. Isso numa tentativa de compreensão e interlocução entre o português, o espanhol e o portunhol. O resultado de cada Mesa seria a elaboração de princípios e ações para a criação de uma Associação de Jovens Realizadores da América Latina e Caribe. E como nossas realidades são muito diferentes, não só no global, mas também no local e regional, tentar encontrar uma linguagem mais universal para nossos anseios enquanto realizadores foi tarefa árdua. Passa pela semântica, há palavras em que não há outras correspondentes no idioma oposto, ou seja, foram algumas dificuldades não só de ideologia e pensamento, mas também de língua. O que foi abordado em cada mesa está na Carta de Sobral. O Encontro Preparatório para o 2º Encontro será realizado ainda esse ano, em Missiones. Abraço, Caroll”

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CARTA DE SOBRAL

Nós, reunidos em Sobral, Ceará, Brasil, de 23 a 26 de maio de 2012, no
marco do primeiro “Nossas Américas, Nossos Cinemas”, participamos do
primeiro encontro de jovens realizadores da América Latina e Caribe,
unindo 16 nações, promovendo um intercâmbio entre gerações. Entendemos
a juventude como um estado de espírito em luta, sem preconceitos e
aberto e nos reconhecemos como povos irmãos.

Este encontro tem, como objetivo, refletir, compartilhar experiências
dos realizadores audiovisuais e gerar ações sobre a linguagem
audiovisual, a comunicação, com o fim de manter vivo um movimento
integrador da nonossa “AbyaYala” (América Latina e Caribe).

Trabalhamos com as heranças milenárias herdadas dos povos originários,
transmitida aos povos transplantados, brancos pobres e escravos
africanos trazidos por barcos colonizadores, e reinventados pelos
povos presentes neste encontro.

Reconhecendo e recusando a ditadura do mercado que oprime nossos povos
e seus imaginários culturais, seguiremos os seguintes princípios:

1.       Considerando A “DECLARAÇAO UNIVERSAL SOBRE A DIVERSIDADE
CULTURAL”, da UNESCO, entre outros instrumentos internacionais que
garantem a identidade e diversidade cultural a partir da produção
cultural, entendemos a realização audiovisual como um direito humano;

2.       Exigir e proteger a plena vigência do direito à linguagem
cinematográfica e audiovisual dos nossos povos, promovendo legislações
que o garantam a cada uma de nossas nações;

3.        Entendemos o audiovisual como um fato político e artístico
de ressignificação e transformação sociocultural;

4.       Apoiar os direitos do público com base nos conceitos marcados
pela Carta de Tabor (1987), criada pela FICC (Federação Internacional
de Cineclubes), para a formação de públicos pela ação dos cineclubes e
das salas de cinema cultural, também apoiando e difundindo o dia 10 de
maio como o dia do público;

5.       Garantir a alfabetização e educação audiovisual dos nossos
povos, na sua dimensão artística e política, encorajando a leitura
crítica dos meios de comunicação;

6.       Exigir o direito a livre comunicação, informação, expressão e
acesso aos meios audiovisuais para todos os povos da América Latina e
do Caribe;

7.        Defender o espectro radioeletrônico e a internet como bens
públicos comunitários com a finalidade de preservar o espaço da
comunicação sem censuras, tendo como referência a “LEY DE MEDIOS Y
SERVICIOS DE COMUNICACION AUDIOVISUAL”, da Argentina, e a nova “LEY DE
TELECOMUNICACIONES”, da Bolívia. Também nos declaramos abertamente
contra o projeto “ACTA”, a lei “SOPA” e qualquer outro ato que ameace
a liberdade de expressão dos povos e nos propomos a fomentar o uso das
licenças “creative commons” e bases operativas como o LINUX, e outros
softwares livres;

8.       Acompanhar e estimular os processos já existentes na
organização do setor audiovisual, que compartilhem os mesmos
princípios levantados por essa Carta, e recomendar a sua criação a
níveis locais, regionais e nacionais, onde não existam;

9.        Exigir dos Estados garantias constitucionais para os
realizadores que sofrem perseguição e ameaças a sua integridade física
e intelectual. Exigimos o tratamento especial diferenciado do
realizador e realizadora audiovisual, da mesma forma que recebem os
jornalistas com relação à proteção e reserva das suas fontes;

10.     Incrementar espaços e oportunidades de acesso à informação e
capacitação integral, bem como tecnologias já existentes e por serem
inventadas, com o fim de garantir o direito de produção e circulação
do audiovisual dos povos da América Latina e do Caribe;

11.     Promover mecanismos de fomento, sustentabilidade e
continuidade dos processos de produção audiovisual dos povos da
América Latina e do Caribe;

12.    Promover a integração cultural latino-americana e caribenha,
respeitando a nossa diversidade cultural com o fim de exercer um
processo de compreensão de uma identidade comum;

13.    Fomentar o pensamento, trabalho e tomada de decisões de maneira
coletiva, respeitando as particularidades e construindo nossos laços
com base na transparência e horizontalidade;

14.    Estabelecer a regularidade e itinerância deste espaço, de
caráter aberto em “AbyaYala”, com rotatividade dos representantes, que
devem socializar localmente os debates levantados nos encontros;

15.    Instituímos a rede virtual como meio válido de vinculação e
discussão;

16.     Defendemos a liberdade criativa de formatos e estéticas na
linguagem audiovisual, respeitando e fomentando a diversidade dos
imaginários culturais dos nossos povos e nações latino-americanos e
caribenhos, não permitindo nenhuma hegemonia estética imposta;

17.    Promover a solidariedade, a cooperação e o trabalho associativo
entre os nossos povos;

18.     Promover a produção audiovisual com atitude critica  e
superadora sobre os nossos imaginários, realidades, histórias, espaços
comuns, semelhanças e contradições;

19.    Gerar uma interação direta entre as produções audiovisuais e os
públicos, por meio de todos os formatos e linguagens existentes e por
serem criados;

20.    Fomentar o uso das línguas ancestrais dos povos originários, e
dialetos da América Latina e do Caribe para ampla difusão dos
conteúdos audiovisuais produzidos pelas comunidades, tendo como
referência o artigo 16 da “Declaração das Nações Unidas sobre os
Direitos dos Povos Indígenas” e outros instrumentos internacionais;

21.    Convocar para este espaço as nações e povos hoje ausentes neste
encontro, procurando a integração e representação de todos os povos e
nações que habitam os países da América Latina e do Caribe;

22.     Reconhecer como válida a experiência e formação não-acadêmica,
acreditando na importância dos conhecimentos vivenciais nas áreas não-
pedagógicas;

23.     Fortalecer o eixo fundamental dos espaços de formação e
capacitação acadêmicos e nãoacadêmicos, de realizadores audiovisuais,
no exercício da memória e história de nossos povos;

24.    Cremos importante gerar o intercâmbio e distribuição de obras
audiovisuais traduzidas nas línguas faladas no nosso continente. Nesse
sentido, comprometemo-nos, de forma colaborativa, a traduzir, dublar e
legendar as obras audiovisuais e documentos que produzirmos;

25.    Este processo não obedece a interesses político-partidários.
Sendo este grupo multinacional, composto por diversos setores da
sociedade civil, entidades governamentais, grupos prontos ao debate e
à recomendação de propostas de políticas públicas para o audiovisual e
à comunicação dos nossos povos.

Ações:

Decidimos pela criação de diversos grupos de trabalho responsáveis
pelas seguintes ações:

Comunicação:
1.       Criação e manutenção de uma lista de comunicação via
internet. O moderador da rede se alternará em cada um dos encontros;
2.       Criação de um Portal;
3. Criação de um boletim eletrônico mensal.

Intercâmbio e Residência Audiovisual:

1.       Formar um grupo de coordenadores, um em cada país, para o
desenvolvimento desta experiência na América Latina e no Caribe, com o
compromisso de criar uma lista de anfitriões e residentes;

2.       As modalidades de residência serão definidas pelas partes
envolvidas caso a caso.

Declarações:

1.       Declaramos nosso apoio à promulgação da nova lei
cinematográfica e audiovisual do Peru, por parte das instituições de
que participamos neste encontro, e o faremos, formalmente, por meio de
uma carta;

2.       Manifestamos o apoio à criação e aplicação das leis de cinema
e audiovisual que estão sendo debatidas no Paraguai, atualmente em
etapa de construção;

3.        Expressamos nossa preocupação e exigimos de nossos governos
cessar a guerra, o genocídio e a perseguição infligidos aos povos
indígenas e afrodescendentes da Colômbia, e deter a onda de violência
vivenciada em países como  México que limitam o livre desenvolvimento
dos direitos a justiça e a comunicação democrática;

4.       Apoio à continuidade e permanência da Jornada de Cinema da
Bahia, encontro que já tem 40 anos de atividades e que corre o risco
de não se realizar este ano. Ressaltamos que, no seu contexto, nasceu
a Lei do curta-metragem no Brasil e a Associação Brasileira de
Documentaristas;

5.       Apoiamos a realização do encontro Cariri / Caribe;

6. Saudamos a designação de 2012 como “Ano Internacional da
Comunicação Indígena” e a celebração do XI Festival de Cinema Indígena
de cineastas dos povos originários, na Colômbia, em setembro deste
ano;

7.        Expressamos nossa profunda preocupação diante do próximo
Encontro de Desenvolvimento Sustentável Rio+20, diante da forma
autocrática como foi definida sua agenda em muitos casos, e diante do
fato de os acordos tomados pelos presentes governos comprometerem
gerações presente e futuras;

8.       Solidarizamo-nos com o fim do bloqueio a Cuba;

9.        No mês de novembro deste ano, realizaremos uma reunião na
Tríplice-Fronteira, na cidade de Iguazú, Misiones, Argentina, com a
finalidade de preparar o segundo encontro de Jovens Realizadores da
América Latina e do Caribe, a ser realizado em 2013 no Peru.

Sobral, Ceará, Brasil, 26 de maio de 2012.

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Sobre SRSC

Journalist. Filmmaker. Audiovisual Researcher. MediaDesigner. English Teacher.

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